quinta-feira, 19 de Novembro de 2009

O salto à Vara

Em 1994, Serguei Bubka – para aqueles que não se recordam foi um dos mais fenomenais atletas do século XX – estabelecia a marca de 6,14 metros no salto com vara, valor que ainda hoje constitui o recorde do mundo sem que se vislumbre que alguém possa em breve vir a superar o nível alcançado por este atleta nascido na antiga URSS.Em Portugal, fruto de atrasos colossais no desenvolvimento de algumas disciplinas «técnicas» do atletismo, a modalidade tem pouca expressão. Há contudo por aí uma variante praticada por algumas das ilustres figuras da nossa praça: o chamado «salto à Vara».Elas germinam nas hostes dos partidos que alternadamente têm imposto a política de direita ao País, circulam na crescente promiscuidade entre o poder político e o poder económico, alimentam-se das privatizações, dos lugares de topo da administração pública, das indemnizações que recebem por cada novo cargo, fazem aprovar as leis e ditar as regras que permitem a sua própria impunidade, tratam por tu ministros, presidentes, accionistas, isto é, utilizando as suas ligações políticas, movem-se, saltam, pulam de empresa em empresa, de negócio em negócio, com a mesma destreza com que Bubka utilizava a vara para subir bem acima dos 6 metros.
Digam lá se não é de uma pessoa com enorme talento pular do balcão de uma dependência da Caixa Geral de Depósitos, em Trás-os-Montes, para o conselho de administração do banco público, e daí para vice-presidente do Millenium BCP, como fez Armando Vara? É evidente que não foi um salto linear. Pelo caminho foi deputado, secretário de Estado e ministro do PS – função que teve de abandonar devido a suspeitas de irregularidades na Fundação para a Prevenção e Segurança, que vieram a ser arquivadas –, concluiu ainda a pulso o seu curso de Relações Internacionais na extinta Universidade Independente, e quase ficava descalço para o resto da vida não fosse o Conselho de Administração da CGD lhe ter garantido uma choruda pensão, na base do rendimento máximo pago dentro da empresa. E vê-se agora a braços com a justiça, com novas suspeitas sobre outros voos que aqui não cabe relatar.
Armando Vara está longe de ser o único a estabelecer verdadeiros recordes nesta vergonhosa circulação entre responsabilidades públicas e negócios privados. E se há boas razões para que os amantes do desporto não esqueçam as façanhas de Bubka, cada vez que este se lançava para um novo recorde, também as há para que o povo português não esqueça os caminhos por onde têm andado estes atletas da esperteza.
Artigo de opinião de Vasco Cardoso

quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

CIT Group vai ao fundo

O maior grupo financeiro de empréstimos a pequenas e médias empresas dos EUA, o CIT Group, anunciou, domingo, que se submeterá ao capítulo 11 da Lei de Falências norte-americana. Para a administração, a decisão de abrir o processo de insolvência num tribunal do distrito de Nova Iorque representa um novo começo, depois de goradas as anteriores tentativas de resgatar a instituição centenária, actualmente incapaz de pagar os cerca de 10 mil milhões de dólares de dívida, alegam.
O Departamento do Tesouro dos EUA já havia injectado no CIT Group 2,3 mil milhões de dólares, dinheiro dos contribuintes que o Estado provavelmente não irá recuperar, avisou entretanto o governo norte-americano.
A semana passada, o CIT obteve um empréstimo de 4,5 mil milhões de dólares provenientes de vários dos seus credores, soma que se junta a outros 3 mil milhões fornecidos pelos mesmos há pouco mais de três meses.
A falência do CIT Group é a 5.ª maior da história dos EUA, depois do Lehman Brothers, da General Motors e do Washington Mutual, o ano passado, e da WorldCom, em 2002.
Bolsos cheios
A par da falência do CIT Group, outras notícias respeitantes à crise capitalista mundial têm vindo à tona nos EUA. No país onde a taxa de desemprego ronda os 16 por cento, o número de pobres é de cerca de 50 milhões e aproximadamente 7,5 milhões de famílias estão envolvidas em processos judiciais por falta de pagamento das respectivas hipotecas, segundo dados da Academia Nacional de Ciências citados num artigo de López Blanch para o Rebelion.org, centenas de milhares de milhões de dólares do programa de resgate levado a cabo pela Casa Branca têm ido parar directamente ao bolso dos grandes grupos económicos e financeiros e seus gestores, tudo em nome «de um novo começo».
De acordo com um documento elaborado pelo procurador-geral do Estado de Nova Iorque, citado no mesmo artigo de López Blanch, nove bancos que receberam 125 mil milhões de dólares da Casa Branca em 2008 distribuíram pelos seus executivos prémios no valor 30 mil milhões.
Depois do escândalo envolvendo a seguradora AIG – cujos executivos gastaram centenas de milhares de dólares numa semana de férias dias depois do governo ter adquirido 80 por cento do capital da empresa - o «relatório Cuomo» revelou que o Citigroup, onde o governo injectou 45 mil milhões, entregou compensações na ordem do milhão de dólares e apresentou perdas de quase 19 mil milhões. Já o Bank of América, que recebeu do Estado uma soma idêntica ao Citigroup, distribuiu 6300 milhões a um núcleo restrito de empregados e executivos.
A lista de compensações elaborada por Andrew Cuomo não termina aqui e inclui ainda o JP Morgan Chase, 8690 milhões; a Goldman Sachs, 4820 milhões; o Morgan Stanley, 4470 milhões; o Wells Fargo & Co. 977 milhões; o Bank of New York Mellon, 945 milhões; e o State Street Corp, 469 milhões, segundo os números divulgado no texto publicado pelo Rebelion.org.
In Avante!

O Acordo nas Honduras

É cedo para escrever sobre os resultados concretos do acordo assinado nas Honduras entre o Presidente Zelaya e a banda golpista de Micheletti, mas não é cedo para proceder a alguns alertas e retirar algumas conclusões.
A primeira é que a luta pela democracia e a liberdade nas Honduras está longe de estar concluída com este Acordo. Desde logo porque a assinatura do Acordo de Tegucigalpa não garante por si o normal funcionamento do Estado e sobretudo a legalidade constitucional. A reposição da legalidade está agora nas mãos dos mesmos órgãos institucionais que «legitimaram» o golpe de Estado; o governo de «unidade e reconciliação» poderá vir a incluir, senão os protagonistas, pelo menos os mais directos apoiantes do golpe de Estado, e o Presidente não terá poder sobre o exército que o depôs. Por estes três exemplos se pode aferir das enormes exigências e complexidades do que está para vir, isto se os golpistas cumprirem o acordado e votarem hoje no Congresso a restituição de Zelaya, o que ao momento da redacção deste artigo não está garantido.
A segunda é que o imperialismo norte-americano demonstrou na prática o conceito de «smart power» de que Obama e Hillary Clinton tanto falam. Tendo apoiado e instigado os golpe, tendo tentado pelas mais variadas vias e até ao ultimo minuto a chamada «terceira via» (a demissão de Micheletti e de Zelaya), a Administração Norte Americana consegue, num quadro de insustentabilidade da manutenção do golpe, o mínimo, ou seja, o branqueamento dos protagonistas do golpe, o seu próprio branqueamento e o espaço institucional para tentar manter a arquitectura de poder económico, político e militar que desenharam para as Honduras e que Zelaya pôs em causa.
A terceira e última conclusão é que este acordo só existe – e é por isso que deve ser considerado uma vitória ainda que parcial - porque o povo hondurenho se mobilizou de forma notável e persistente contra o golpe de Estado. E porque na América Latina países como a Nicarágua, Cuba, Venezuela e organizações como a ALBA se uniram numa operação de isolamento do regime golpista com repercussão mundial que fez retroceder a hipocrisia dos EUA e da União Europeia. E serão a luta do povo e a solidariedade internacionalista os dois factores essenciais para o desfecho deste e de outros processos. É sempre assim!
Artigo de opinião de Ângelo Alves

sábado, 7 de Novembro de 2009

«Eleição histórica»

Uma coisa chamada «Comissão Eleitoral Independente» decidiu que não haveria segunda volta nas eleições afegãs e proclamou Hamid Karzai «presidente eleito do Afeganistão». Os EUA felicitaram Karzai pela vitória «nesta eleição histórica» e prometeram continuar a apoiá-lo.
Pronto: está no poder quem os EUA queriam que estivesse. A democracia funcionou e triunfou. Agora é só enviar mais umas dezenas de milhares de soldados norte-americanos e tudo ficará resolvido à maneira.
A história desta «eleição histórica» é paradigmática do tempo que vivemos.
Como é sabido, na monumental fraude que foram as eleições de 20 de Agosto passado, Karzai foi o candidato, digamos assim, mais votado, logo seguido por Abdullah Abdullah. Recorde-se que a primeira «leitura» dos resultados eleitorais deu a vitória com mais de 50% dos votos a Karzai, o que arrumava desde logo o assunto…
Mas as fraudes eram de tal monta e tão óbvias que tal «leitura» não logrou impor-se e teve que ser corrigida: os resultados finais obrigavam a uma segunda volta entre os dois candidatos mais votados.
Agora, Abdullah desistiu, por considerar que as fraudes eleitorais da primeira volta iriam repetir-se.
Face a esta desistência, e sem olhar às suas causas, logo os EUA – bem como alguns governos de outros países ocupantes e o secretário-geral da ONU - apontaram como solução a anulação da segunda volta das eleições e a entrega da presidência ao… organizador das fraudes – e a tal «Comissão Eleitoral Independente» assim fez.
É claro que havia a possibilidade - esta democrática, de facto - de ser chamado a concorrer o terceiro candidato mais votado em 20 de Agosto, mas ao que parece tal hipótese nem sequer foi considerada…
Na verdade, não há democracia que resista ao modelo de «democracia made in USA» que o imperialismo norte-americano tenta exportar para todo o planeta – modelo cujo conteúdo democrático fica bem evidenciado com esta «eleição» de Hamid Karzai para presidente do Afeganistão com os votos obtidos em eleições reconhecidas por toda a gente como fraudulentas.
Por isso mesmo, uma «eleição histórica» - como faz questão de sublinhar o Governo de Barack Obama.
Artigo de opinião de José Casanova

terça-feira, 3 de Novembro de 2009

O Sr. Governador

O Sr. Governador é uma figura marcante destes mais de 30 anos de política de direita. Foi deputado, secretário de Estado, ministro das Finanças, administrador da EDP e do Banco Português de Investimento, passou também pelo Banco de Portugal em meados dos anos 80, e fixou-se como Governador deste banco desde o ano 2000 com o apoio de PS e PSD. Economista, homem de números e de contas, mas também de elevadíssimas responsabilidades partidárias, entre as quais as de Secretário-geral do PS, Vítor Constâncio, é por assim dizer um... Sr. Governador.
Homem de silêncios cúmplices com os milhares de milhões de lucros da banca nos últimos anos, «supervisor» embaraçado e comprometido quando se tratou de explicar a vista grossa e conveniente negligência do Banco de Portugal face à persistente actividade criminosa verificada no BPN, no BPP, já para não falar do BCP, o Sr. Governador é o primeiro a abrir a boca quando se trata de justificar novos sacrifícios para os trabalhadores e o povo português.
Para além das contínuas referências ao longo dos anos sobre a «rigidez da legislação laboral», qual obstáculo ao desenvolvimento do País, ou o «excessivo endividamento das famílias» fruto da irresponsabilidade de quem quer ter um tecto para viver e tenta pagar uma casa ao banco durante 50 anos, a obsessão do Sr. Governador chama-se: CONTENÇÃO SALARIAL.
Isso mesmo foi dito – ou contenção salarial ou desemprego – pelo Sr. Governador, na passada semana, perante uma plateia de economistas que, atentamente, ouviram as palavras sábias, tecnicamente validadas pelo cargo que ocupa e absolutamente desprendidas de outros objectivos que não os do interesse nacional sobre o perigo dos aumentos salariais. Palavras que rapidamente foram amplificadas pelos principais órgãos de comunicação social e que se juntaram às do Presidente da CIP, que vociferou contra o acordo estabelecido para o aumento do salário mínimo nacional para 500 euros até 2011.
É para isso que pagam ao Sr. Governador, para dar assertivos conselhos do alto da sua fulgurante inteligência e rasgadíssima visão. Palavras sábias, que facilitam a vida ao grande patronato e ao Governo PS – que age como se não tivesse perdido a maioria absoluta nas recentes eleições – para que, de braço dado, intensifiquem a sua política de injustiças e exploração. Palavras pagas a peso de ouro, ou não fosse o Sr. Governador homem para ao fim do mês levar para casa qualquer coisa como 20 000 euros de salário. E até aposto que ainda haverá quem ache pouco para tão grande serviço prestado à Nação.
Artigo de opinião de Vasco Cardoso